Na Amazônia cresci muito profissionalmente e, literalmente no meio da floresta, conheci uma pessoa que me ensinou que seria possível voltar a subir em árvores. Depois de tantos anos da vida sem esta conexão com o Povo-em-Pé (modo com são chamadas pelos povos nativos americanos), me bateu de novo aquele gostinho bom de infância, quando a família toda subia no famoso pé de manga do sítio da querida tia Regina, na cidade Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo.
Aquele encontro inusitado com o escalador de árvores ficou na minha cabeça. No ano seguinte, seguindo a mesma onda intuitiva, fui parar nos Estados Unidos, desta vez para aprender inglês. Lá me deparei com aulas de tree climbing, onde escalar árvores com cadeirinha e mosquetão de um jeito que não agride a árvore é uma atividade que tem se tornado cada vez mais comum entre os americanos. Fiz o curso.
Um dia resolvi me arriscar em uma árvore um pouco mais alta do que as que eu estava acostumada a subir. Aquela redwood me chamou. Era tão alta que meus cálculos a colocavam lado a lado com um prédio de uns 20 andares. Estava na companhia de um amigo que subiria junto comigo.
Estávamos na California, dentro de uma propriedade particular. Com o consentimento do dono do terreno que abrigava aquela velha senhora, passamos a subi-la. Eu estava tão focada na técnica que me esqueci de apreciar a literal grandeza daquele momento. Sobe, sobe, vê se está tudo bem com a corda, os equipamentos, sobe mais um pouco. Estava de frente para o tronco que, enorme, ocupava toda a minha visão dianteira.
De repente, ouço um barulho...começou fraco e foi ficando mais alto. Zuuuuuummmmmmmmmmmm....era o vento que se aproximava. De copa em copa, até chegar na redwood que me segurava. Ele chegou com tudo. Foi quando me dei conta da altura em que estava. Quando olhei para baixo e para os lados. O carro branco, reduzido a um polegar, não deixava dúvidas do quanto eu havia levado a sério aquela história de subir em uma redwood. Fiquei nervosa, "meu Deus!". O amigo quis falar comigo, me acalmar. "Olha, vou prender você em mim, fica tranquila, estamos seguros", mas eu não quis ouvi-lo. Não foi dele que eu precisei naquele momento. Foi dela. "Espera um pouco", falei. Abracei o galho gigante que fortunadamente estava ao meu lado. Fechei os olhos. E balançamos, balançamos...
Aquele momento ficou na minha cabeça por uma semana inteira. Decidi voltar ao lugar e me dar uma segunda chance de escalá-la. Desta vez teria que subir sozinha, pois ele estaria ocupado, em outra redwood, com o dono da propriedade. Lembrei-me da saga de Julia Butterfly Hill, a mulher que morou por mais de 2 anos em uma sequóia para salvá-la e, imitando-a, também chamei a "minha redwood" de Luna. Minha Luna.
Olhei pra ela e disse "ok, vamos tentar de novo".
Desta vez, subi devagar. Respirando com calma, olhando para os lados, para baixo. Passei a notar que, aos poucos, o carro branco diminuía de tamanho.Em dado momento eu lá, sozinha, sinto vontade de parar. Os mais céticos podem não acreditar no que vou contar agora. Os mais místicos talvez acreditem. Independentemente de suas crenças, a jornalista que vos fala ganhou daquela árvore, naquela tarde de sábado, uma das lições mais lindas que já recebeu na vida.
Percebi, com a cabeça encostada naquele enorme tronco, que aquele chamado para voltar a vê-la era uma lição de confiança: em mim mesma (como assim às vezes não confio em mim quando, naquele momento, minha vida estava em minhas próprias mãos?! Se eu não confiasse em mim de verdade, não faria isso!); nos equipamentos e na técnica; naquela árvore (em pé há 1.500 anos, já sobreviveu a tantos ventos ao longo da existência...cairia justo comigo pendurada nela? Ok, acidentes podem acontecer, mas aquele não foi o meu caso. Desenvolvi uma relação de confiança com aquela redwood) e, por fim, confiança na vida. Naquele momento de silêncio no qual com aquele ser tive um diálogo profundo, entendi que eu poderia fazer muito mais coisas do que imaginava...e que, para tudo o que eu quisesse fazer, contaria com o misterioso apoio daquela lembrança...do dia em que subi naquela árvore.
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Um dia recebo um convite inusitado - passar um fim de semana dentro de uma ex-ecovila, futura RPPN, às margens de uma rodovia no município de Presidente Figueiredo, há poucas horas de Manaus, capital do Amazonas. Descobri naquele lugar um refúgio raro não só de espécies, sons e cheiros, mas de silêncio, daqueles que muitas vezes desejamos tanto enquanto confinados no vai-e-vem barulhento de grandes cidades.
Passei a caminhar por uma trilha que tinha cerca de 2 km de extensão. Andar sozinha na floresta, por mais que haja uma trilha, é algo extremamente mágico e desafiador. Você para de ouvir buzinas para ouvir o som da mata e a tagarelice da sua mente, com perguntas inconvenientes do tipo "e se eu me perder? E se aparecer um puma? E se eu pisar numa cobra?". Ok, estes pensamentos podem ter permissão para aparecer "antes" de nos embrenharmos na floresta, porque uma vez lá dentro, estes são os piores companheiros que se pode ter.
Os povos nativos dizem que a natureza nos reconhece quando somos educados e respeitosos. Então antes de partir para qualquer caminhada, eu sempre agradeço, peço licença e proteção. Quando estes pensamentos aparecem eu lembro disso, eles somem, eu me sinto protegida e, com cautela, continuo a caminhar.
Pois bem. Naquele fim de semana, quando estava quase chegando no igarapé, passo em frente a uma árvore muito alta. Infelizmente não sei sua espécie. Foi como se meus pés tivessem travado no chão. Empaquei. Não quis mais andar. Fiquei de frente para ela. Estava em um momento de vida pessoal bem complicado, tendo que me desapegar de coisas que amava muito. Comecei a chorar. De repente, senti uma energia muito forte - e eu de frente para ela.
Me vem na cabeça o seguinte: "a floresta que você vê aqui não esteve sempre assim. Para que todas essas árvores existissem, outras tantas tiveram que, naturalmente, tombar. E para que a floresta continue existindo, as que você vê hoje também seguirão seu ciclo e tombarão um dia, para dar lugar a outras mais novas. O movimento constante é necessário para a manutenção da vida" - (esta mensagem nada tem a ver com incentivo ao desmatamento provocado. Ela foi um insight do ciclo natural da floresta. Para que exista sempre, é necessário que árvores deem lugar umas às outras. Assim como acontece com nós, seres humanos. Uns precisam morrer para que outros possam nascer).
Ao sentir isso profundamente - uma verdade tão óbvia e tão importante de ser lembrada naquele exato momento - enxuguei as lágrimas, agradeci e terminei minha caminhada no igarapé onde, de dentro da água límpida, pedi forças para aceitar o recomeço. Cheguei a voltar lá outras vezes. É como reencontrar uma velha amiga. Ao vê-la, sorrio, respiro fundo e parto para um abraço.
As árvores falam...é só ter ouvidos para ouvir.
Feliz Dia das Árvores!
Save the planet!
Feliz Dia das Árvores!
Save the planet!



